segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Silêncio da Sanfona: A Descaracterização do São João Baiano em 2026

 OPINIÃO




Dizer que as tradições mudam é um truísmo; dizer que elas devem ser asfixiadas pelo imediatismo do mercado é um diagnóstico de crise cultural. O que se testemunha nos festejos juninos da Bahia em 2026 não é uma evolução natural dos palcos, mas sim uma substituição sistemática e predatória. O autêntico forró, com sua espinha dorsal moldada pela sanfona, pelo triângulo e pela zabumba, foi empurrado para a periferia da programação, enquanto o arrocha assumiu o protagonismo absoluto das praças públicas.

Não se trata de elitismo musical ou de demonizar o arrocha. O gênero, legitimamente baiano e nascido na criatividade da periferia de Candeias, tem seu valor inestimável no cenário pop, no ecossistema das serestas e nas festas de paredão ao longo de todo o ano. A crítica não é à existência do arrocha, mas à sua onipresença colonizadora em uma época do ano que possui uma identidade histórica muito bem definida.

O São João do Nordeste, e em especial o da Bahia, sempre foi um santuário de resistência cultural. É o momento em que a herança do homem do campo, a poética de Luiz Gonzaga, a genialidade de Dominguinhos e o compasso do xote, do xaxado e do baião ganham o centro do debate e do turismo. Quando prefeituras do interior justificam a contratação massiva de grandes nomes do arrocha e do "sertanejo-arrochado" sob o pretexto de "atrair público" e "modernizar a festa", elas assinam um atestado de preguiça institucional.

O resultado prático dessa escolha em 2026 é um empobrecimento estético gritante:

  • Padronização do Repertório: O que se ouve de praça em praça é uma repetição exaustiva dos mesmos sucessos de rádio, baseados em batidas eletrônicas programadas e letras hiperfocadas na dor de cotovelo e na ostentação, distanciando-se da crônica social e lírica do forró tradicional.

  • Marginalização do Artista Local: Os sanfoneiros e as bandas de forró pé-de-serra, que passam o ano esperando o mês de junho para garantir o sustento e manter viva a tradição, foram relegados a palcos secundários, horários ingratos (como o início da tarde ou a madrugada avançada) ou cachês infinitamente menores.

  • Perda de Identidade Turística: O turista que viaja para o interior da Bahia em junho busca o diferencial, a experiência da fogueira acesa ao som de um fole bem tocado. Ao transformar o circuito junino em uma micareta romântica sem fim, destrói-se o ativo mais precioso da festa: a sua autenticidade.

Tradição não é o culto às cinzas, mas a preservação do fogo. Se o Estado e os municípios continuarem a tratar o São João apenas como um balancete financeiro de curto prazo, moldado pelos algoritmos de plataformas de streaming e escritórios de agenciamento artístico, o futuro dos festejos juninos na Bahia estará comprometido.

Junho precisa voltar a cheirar a pólvora e milho assado, e a soar como a sanfona que chora e alegra. O arrocha tem os outros onze meses do ano para reinar; o São João pertence, por direito histórico e de herança, ao forró.

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